segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sobre abusos, piadas e conversas

Postado por Y ♥ às 21:12
Há pouco mais de um mês eu fui a padaria na esquina da rua de casa. Um homem que estava dentro da padaria me seguiu, fazendo psiu, psiu, gritando coisas como "gatinha" "ow, para aí pra gente conversar". Para desespero dele, eu parei. Olhei-o nos olhos e gritei o mais forte e violentamente que podia usando as palavras mais pesadas que me vieram a cabeça. Eu observei ele recuar e só então retomei meu caminho. Por que eu não tenho medo.

Estive em um evento, uma espécie de happy hour no meio da rua com algumas amigas durante o final de semana, sorrimos, conversamos e nos divertimos bastante. Deste evento tirei algumas fotos. Uma delas, de uma amiga loira, com o busto grande, sorriso aberto, levemente alcoolizada. Diversos rapazes curtiram a foto, no facebook e no instagram e alguns vieram comentar comigo - como se fosse do meu interesse, os atributos físicos da moça. Houve aquele que viesse me dizer que ela "estava super gostosa" como se: 1- isso fosse do meu interesse 2- essa falta de respeito tivesse para mim a menor graça. Novamente hoje, desta vez uma pessoa ao qual tive sempre admiração, alguém que deveria saber o peso das palavras, um escritor, perguntou-me se eu poderia "apresentá-la". Sabe "pega ali da vitrine, vendedora, que eu quero testar".

Mas o que as duas histórias tem em comum?  Vamos a algo bem simples, meus amigos, tais reações não são só absurdas e nojentas, são machistas. O mesmo machismo que diz, por senso comum, que minha amiga está "na vitrine" para que o macho da vez a escolha e a vendedora (eu) vá buscar, diz ao homem da padaria que eu estou  na vitrine, e ele pode ir me buscar.

Ah, mas que exagero, são só cantadas, é só uma piada. Suas piadas dizem que é engraçado que eu todos os dias eu tenha violado o meu direito de ir aonde quiser, vestir o que quiser, sair a hora que quiser. Suas piadas retiram a minha capacidade de reação, chamando minha indignação de "mimimi de feminista". Suas piadas estupram e matam, e dizem em alto e bom som que a culpa foi da moça, afinal ela bebeu demais, ela postou foto no facebook, ela estava usando um decote, ela foi a padaria sem um macho que lhe defendesse.
Eu nunca sofri nenhuma violência física, o homem da padaria não me atacou, porque eu não tenho medo. Quantas pessoas tem medo, quantas mulheres se encolhem e se deixam agredir por que poderia ser pior? Todos os dias passo pela violência moral por ser mulher, e não, isso não é risível. E não, eu nunca vou me calar, ou cansar de reclamar.

3 comentários:

Angel ♥ on 10 de fevereiro de 2014 às 23:22 disse...

O único problema é que o machismo é aquele tipo de coisa tão violenta e perigosa que só não ter medo não te defende de tudo, infelizmente.
Eu tenho medo, muito, muito, muito medo. O medo de quem já foi agredida inúmeras vezes, e não só de forma verbal ou moral, mas física. O negócio é que anyway, tendo medo ou não a única forma de acabar com isso é denunciando, gritando para o mundo e espalhando a mensagem.
Muito obrigada por mais uma vez denunciar essa dor que é de todas nós mulheres, mas muitas não conseguem gritar.

Y ♥ on 11 de fevereiro de 2014 às 07:50 disse...

É verdade. Ninguém é imune ou menos propensa por conta do medo ou da ausência dele :/. Vamos gritando uma por uma que uma hora vamos ser ouvidas e essa coisa horrorosa vai acabar

Laís ♥ on 13 de fevereiro de 2014 às 19:08 disse...

eu tbm tenho muito medo mas como vcs disseram vamos gritando que uma hora ouvem

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